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CULTURA
Setembro 2017
Ter, 13 de Dezembro de 2011 18:50

“Abdias Nascimento”: Pela comunhão racial

Escrito por Miguel Pereira*
260px Abdias Do Nascimento
Personagem da vida cultural e política brasileira, Abdias Nascimento foi um ardoroso apóstolo da luta contra o racismo e um pioneiro na formação dos negros para o teatro e as artes. Enfrentou todas as adversidades e perseguições por uma causa justa e nobre.

Se Augusto Boal cunhou a expressão “teatro do oprimido”, Abdias criou o “teatro experimental do negro”, movimento que formou gerações de atores, atrizes e diretores que se tornaram referência na cena brasileira. O documentário Abdias Nascimento, de Aida Marques, é muito mais do que uma justa homenagem a esse bravo brasileiro, falecido em maio do corrente ano, aos 97 anos de idade.


Construiu sua narrativa a partir de algumas encenações e conversas gravadas com o próprio Abdias e seus amigos e parceiros. O curioso é que esse ritual de aproximação com o personagem se faz, em sua maioria, em espaços grupais, em mesas de bar e outros ambientes públicos, e até mesmo durante um almoço familiar em que Abdias e mais quatro militantes da causa negra conversam informalmente. A explicação de tal procedimento vem logo a seguir a essa sequência, quando a mãe Beata de Iyemonjá faz uma visita a Abdias e pronuncia a frase que dá sentido a toda a pregação do líder negro: bebemos e comemos para celebrar uma comunhão. Não é o ódio racial que está no coração de Abdias, mas a comunhão racial verdadeira, mesmo que para comungar tenhamos que disputar a verdade de cada um, se possível, com grandeza a princípios construtivos. Esse é o perfil que Aida Marques construiu de Abdias através do seu documentário. Um homem combativo, mas sereno e respeitador da alteridade.

O documentário mostra o pensamento e a ação de um brasileiro que “agitou a sua raça”, para usar a expressão do próprio Abdias. Um agitador consciente dos seus passos e construtor de pontes para o desenvolvimento humano integral. Se o teatro foi uma das armas que usou de modo eficaz, o texto e a pintura completam uma simbologia que marca, profundamente, a cultura brasileira. Não apenas isso. Abdias foi um político que dignificou os seus mandatos de homem público. Reuniu em torno de si valores que se transformaram em bandeiras de luta por melhores condições de vida para todos.

Na perspectiva do filme de Aida Marques, era um humanista no melhor sentido da palavra. Pensava a liberdade para todos. E já para o final de sua narrativa, Aida encena parte do Sortilégio II, de Abdias, com uma primorosa interpretação calcada apenas na luz, sombras, corpo, falas, rosto, olhares, enfim, a poesia de uma série de imagens de talento e emoção à flor da pele, que brotam dessa talentosa atriz que é Camila Morgado. Belo fechamento para um filme rico de dimensões afetivas e conhecimentos novos.

Abdias Nascimento é um documentário que nos coloca na verdadeira cena dos nossos preconceitos e nos chama a atenção para a mudança que precisamos operar em nossa vida interior para exorcizarmos o racismo que ainda persiste em nossa sociedade.

*Professor da PUC-Rio e crítico de cinema

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