ÍNDIO - BRASILEIRO COMO NÓS. NÓS - PARTE ÍNDIOS COMO ELES.
MAIGRÁ
Na semana em que o Supremo Tribunal Federal aprovava o estabelecimento da Terra Indígena Raposa Terra do Sol em Roraima na forma de terras contínuas, estava cercado de membros de algumas etnias indígenas amazônicas do Rio Negro. Uma diversidade cultural grande, diversas línguas, nas muitas comunidades ao longo daquele rio, uma experiência fantástica. Voltava de uma série de visitas a essas comunidades. Vi muita miséria, falta de apoio de órgãos governamentais, doenças recorrentes, mortes precoces, os índios jogados à própria sorte. Mas também vi muita beleza e alegria na vida simples deles.
Retornava a Manaus no recreio “Tanaka Neto V”, com sua lotação completa, 90 passageiros. Com exceção de duas famílias que ocupavam as únicas cabines, o restante dos passageiros se acomodava em redes. Nessas viagens amazônicas, prefiro o uso delas ao invés das camas, são bem confortáveis e mais frescos.
Eram Yanomami. Como soube? Perguntei, ora. Têm uma cor de pele e de cabelo diferente das etnias que havia conhecido anteriormente, mais clara. O menino, de uns dois anos, deitado com a mãe na rede, fazia caretas e se movimentava muito, apesar de não descer da rede.
Iam a Manaus também, levar o filho para fazer uma consulta médica em uma ONG indígena. O pai me disse que o indiozinho estava com problemas no estômago, embora não parecesse, devido à agitação que demonstrava. Já conheciam a cidade, haviam ido algumas vezes, por motivos semelhantes. Em outras ocasiões, foram a Roraima, visitar parentes, uma vez que moravam em Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas, onde há uma comunidade de sua etnia.
Seu nome era Maigrá. Um rapaz não muito alto, cabelo curto. Apresentava uma tatuagem na face, de pequenos pontos acima dos lábios, imitando um bigode unilinear, que se prolongava até perto das orelhas. A mulher tinha um brinco nas orelhas, um pequeno pedaço de galho, esbranquiçado, semelhante ao usado por algumas etnias indígenas do Mato Grosso, como os Xavante. O garoto tinha as orelhas furadas e um pequeno pedaço de barbante em cada uma delas mantinha o orifício aberto, pensei.
A bagagem da família, para os dias em que ficariam na capital (não perguntei por quanto tempo ficariam lá), era constituída por duas pequenas malas de pano sintético, uma caixa de papelão com farinha e outros víveres e dois grandes cachos de banana comprida, bem como uma cuia, dois pratos esmaltados e uma garrafa PET com água, além das duas redes de pano em que estavam descansando.
Conversei com ele um tempo. Tinha alguma dificuldade na língua portuguesa, mas não me importava, a comunicação era possível, envolvendo paciência e também gestos. Além disso, ele estava bem melhor do que eu, que não falo e nem entendo uma única palavra na língua Yanomami.
Há pouco tempo havia assistido a um vídeo de sua etnia, com pouco contato com os brancos, decerto em alguma comunidade no norte do Brasil, em seu imenso território de ocupação histórica ancestral, marcado por uma intensa disputa com vários segmentos da população branca. No vídeo, ainda andavam nus, caçavam com zarabatanas, mas cultivavam várias espécies vegetais, com destaque a diversos tipos de pupunha e também no consumo de cogumelos, não comum entre os demais indígenas brasileiros.
No barco, comeram a mesma comida oferecida para os passageiros, mas complementados pela farinha que traziam. Reparei que comiam pouca carne, apesar de ser oferecida regiamente durante o almoço e jantar. Ao contrário, bananas eram avidamente consumidas, junto com a farinha.
Durante a viagem chovia muito e a tripulação do barco esticava lonas plásticas para proteger os passageiros, que se abrigavam conforme podiam, enrolados em suas redes. Maigrá trajava apenas calção e camiseta de manga curta, mas parecia não se importar muito com a chuva e o vento. Pediu emprestado um i-pod de outro passageiro ao lado e ouvia não sei quais músicas, enquanto esperava o mau tempo passar.
Perto de Manaus, após um temporal tropical que fizera “banzeiro” nas águas do Rio Negro, balançando bastante o barco, reparei que ele observava com atenção algumas modificações da paisagem, especialmente a grande ponte de concreto que está sendo construída para cruzar esse imenso rio, ligando Manaus a Cacau Pirera, em direção às cidades ao longo daquele rio. Uma temeridade em termos de conservação da floresta naquela parte ainda muito bem conservada, na minha opinião, pois vai facilitar o acesso a essas áreas, que já tem estrada asfaltada, com a conseqüente devastação da floresta.




